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sexta-feira, setembro 10, 2004



Fantasias proibidas


Encontro-me na cidade
Onde as travessas são sombrias.
Ando em cima do carril do eléctrico
Como um malabarista de circo.

Encontro rostos, cruzo-me com tristezas...
Batem-me vidas,
Magoam-me dores alheias.

Procuro um pouco mais.
Viro a cabeça.
Deito fora a brancura da cegueira
Salto sem rede
No vazio... voo como as gaivotas que se recolhem das tempestades.

Olho.. e vejo pela primeira vez.
Palvavras a passear no passeio
Atravessam a passadeira
Não param no sinal vermelho.
Seguem em frente.
Descem a rua onde o Escritor ama a sua musa...
E chegam ao azul do rio.

Um dia passarão para a outra margem.


Sonho-te no cenário das fantasias proibidas, terríveis, depravadas, demoradas, encantadas... envoltas em bruma de memória de ontem, de hoje, de amanhã.

Tenho saudades do que não vivi, tenho saudades do que vou viver.

Volto às vielas antigas onde as palavras já foram gritadas,
Becos e ruas formam o palco de um história sonhada
Inventei um amor, e dele dei conta à minha cidade.
Murmurei-o ruidosamente, sempre pela calada da noite.
Passeei na calçada portuguesa.

E roubei uma linha ao Poeta “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”

Agarrei nessa linha e cosi-a ao meu vestido de seda e organdi. Como uma segunda pele. Pele tão macia quando se acende no doce toque dos teus lábios. Coloquei-lhe uma estrela na gola. Vesti-me de Festa. Despir-me-ei em êxtase. Sob o teu olhar de pressa. Sob o teu olhar de luxúria, que me torna princesa dos teus contos de fadas.

Desci a travessa inclinada, com o azul no fundo dos meus olhos. Com o desejo no calor do meu corpo. Sentindo nas minhas coxas ondulantes, os teus dedos que procuram apressados o prazer que será nosso.

Danço ao som dos sorrisos secretos que te lanço, ao som dos silêncios abafados que te ofereço. Como um orgasmo murmurado, contido em soluços de acordes estridentes.

Viajo num veleiro com gaivotas por tripulação, olhando para a foz de todos os rios. Este, que me ama e me chama, é apenas “O rio que passa na minha aldeia”.

Passo então para a outra margem da cidade. Abro a alma e o corpo para te encontrar. Para me descobrir. Para ser a tua foz, o cálice que te recebe de lábios abertos e doces. Loucos de te saborear no espasmo do teu prazer...

Navegas em mim, para te perderes...
Eu uso um olhar brilhante que se confunde com o azul quase lilás que trago de outros lugares.

Perdes-te no meu rio, salgado e doce, saboreias o meu gemido, acaricias os meus receios, penetras a minha concha.

Vejo-te mergulhar no desejo do abismo.

Apanho-te no salto e embalo as tuas incertezas suaves e transformo-as em ternuras dos gritos dos golfinhos.

Já não há margens. As cidades desapareceram. Fica-nos o mar. Fica-nos o dia de sol que partilhámos tão longe e tão perto.

fantasia revisitada em mulheres em chamas