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quinta-feira, setembro 30, 2004



Hoje é sem máscara


O que me mostras quando te escondes?



talvez tire hoje a máscara
para te ver pela primeira vez


segunda-feira, setembro 27, 2004



A luz da sombra


- "Já viste a lua?"

Tinhas-me nua nos teus ombros, soerguias-me na cintura e eu rodava para ti numa vertigem imaginada.

- "Tem um ar radiante, uma luz e um encanto que resistem à falácia do tempo".

Mordias-me então o tornezelo e a tua língua passeava nos meus lábios quais entranhas do vento.

- "Brilha. Já viste como brilha?"

Vergavas para mim e fechavas os olhos ofegantes...

- " Não podes ser tão bonita", murmuraste.

Tinha-te nú no silêncio. Nú sem corpo. Nú sem noite e sem dia. Nú de uma vida tocada pelo brilho da lua.

- "Esta noite buscaste o cheiro dessa lua e com ela impregnaste o meu prazer". Então lentamente cedeste.... e num suspiro gemido suave, extasiaste na minha nudez...

- "Diz-me porque tenho de ser borboleta no tempo..."

(...)

- "Diz-me porque tenho, enfim, de ser sombra quando amo a transparência..."

(...)

- "Não me dizes..."

- "Por vezes, minha querida, a luz que mais ilumina não se vê. Como tu, sem inocência, quando te te tenho nua só para mim".


domingo, setembro 26, 2004



Pele


Respondo-te como se respirasse ao pé da tua janela.
Como se te olhasse num siêncio cúmplice
Comse se te beijasse de olhos fechados
Como se te tocasse de mãos abertas


Deixas-me com todas as palavras que conheço
com os medos do escuro
onde não estás
procuro a tua vontade no meu corpo
preciso da tua inquietação
como uma carícia na minha pele de seda...
desta noite.



fotografia de alberto monteiro



domingo, setembro 19, 2004



Anjos nesta noite


Esta noite antes de fechares os olhos, abre a janela.

desenlaça o lençol branco que tem a fragrância do incenso do teu desejo
despe-te das roupas que usas nos dias de todos os dias
deita-te nu na virgindade da tua oferta
espera por mim como se esta fosse a tua primeira noite de amor
espera por ti como se esta fosse a minha primeira noite de amor.

eu serei a tua fantasia magicamente perfeita
usarei os dedos macios e os meus seios cor de rosa
usarei a seda da minha pele para te seduzir
usarei a nudez da minha alma para te encontrar

o meu sorriso entrará no teu sonho
o meu corpo será o teu sorriso de deleite
beberei o teu suor tão doce depois do teu gemido final
saberás assim, do meu sabor por descobrir

seremos anjos, tu e eu, esta noite.


fotografia de Pedro Guimarães o blogue
o site das fotos


sábado, setembro 18, 2004



Sabes?


Sabes o que me fazes com esse teu olhar verde de calma?
Sabes o que me fazes quando tocas na minha nuca com a ponta dos dedos?
Sabes o que me fazes quando me dizes adeus em sorrisos de até sempre?

Apaziguas a angústia e devolves-me a inquietação...


sexta-feira, setembro 17, 2004



Um beijo


Só um beijo no dia de hoje. Porque a sedução é feita de afectos e de cores...

Gustav Klimt


quinta-feira, setembro 16, 2004



Hoje é com um suspiro...


...

- Sabes o que é a sedução?
- Sei de ti.
- Sabes como me seduziste?
- Sei de mim. Encontrei-te e apenas me procurava a mim.
- Eu procurava a magia e encontrei um homem. Estás aí?


(Estou. Estou contigo e comigo enquanto sentirmos o aroma de uma chávena de café em sorrisos. Estou contigo e comigo nas noites em que as tuas lágrimas ensoparem o meu sofá.)


terça-feira, setembro 14, 2004



Hoje é a cores


- Usas filtros quando fotografas a cores?
- Não. Uso apenas o olhar.

- E tu? Usas filtros quando amas?
- Não. Quando amo dispo-me totalmente.


domingo, setembro 12, 2004



Afinal...


A cor do meu vestido azul, afinal, não era a cor do céu. Era o mar, o sabor do teu corpo quando juntos navegamos. Quando amarras, são as tuas mãos nas minhas e fechas os olhos devagar...

A cor dos meus olhos não era, afinal, a cor das árvores. Era o mundo pintado a outono quando Setembro ilumina os dias e lambe de luzes silenciosas o teu olhar...

Afinal, a cor da vida não era vermelho. Era a cor do sangue amante a pulsar sobre o teu, num gemido constante que a corrente afasta sem querer...

A cor desta viagem não era, finalmente, o arco-irís que não podemos ter. Era a invenção da vida depois da cor, quando grito o teu nome em lilás transparente e desejo saciar na tua boca o meu prazer...



sexta-feira, setembro 10, 2004



Fantasias proibidas


Encontro-me na cidade
Onde as travessas são sombrias.
Ando em cima do carril do eléctrico
Como um malabarista de circo.

Encontro rostos, cruzo-me com tristezas...
Batem-me vidas,
Magoam-me dores alheias.

Procuro um pouco mais.
Viro a cabeça.
Deito fora a brancura da cegueira
Salto sem rede
No vazio... voo como as gaivotas que se recolhem das tempestades.

Olho.. e vejo pela primeira vez.
Palvavras a passear no passeio
Atravessam a passadeira
Não param no sinal vermelho.
Seguem em frente.
Descem a rua onde o Escritor ama a sua musa...
E chegam ao azul do rio.

Um dia passarão para a outra margem.


Sonho-te no cenário das fantasias proibidas, terríveis, depravadas, demoradas, encantadas... envoltas em bruma de memória de ontem, de hoje, de amanhã.

Tenho saudades do que não vivi, tenho saudades do que vou viver.

Volto às vielas antigas onde as palavras já foram gritadas,
Becos e ruas formam o palco de um história sonhada
Inventei um amor, e dele dei conta à minha cidade.
Murmurei-o ruidosamente, sempre pela calada da noite.
Passeei na calçada portuguesa.

E roubei uma linha ao Poeta “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”

Agarrei nessa linha e cosi-a ao meu vestido de seda e organdi. Como uma segunda pele. Pele tão macia quando se acende no doce toque dos teus lábios. Coloquei-lhe uma estrela na gola. Vesti-me de Festa. Despir-me-ei em êxtase. Sob o teu olhar de pressa. Sob o teu olhar de luxúria, que me torna princesa dos teus contos de fadas.

Desci a travessa inclinada, com o azul no fundo dos meus olhos. Com o desejo no calor do meu corpo. Sentindo nas minhas coxas ondulantes, os teus dedos que procuram apressados o prazer que será nosso.

Danço ao som dos sorrisos secretos que te lanço, ao som dos silêncios abafados que te ofereço. Como um orgasmo murmurado, contido em soluços de acordes estridentes.

Viajo num veleiro com gaivotas por tripulação, olhando para a foz de todos os rios. Este, que me ama e me chama, é apenas “O rio que passa na minha aldeia”.

Passo então para a outra margem da cidade. Abro a alma e o corpo para te encontrar. Para me descobrir. Para ser a tua foz, o cálice que te recebe de lábios abertos e doces. Loucos de te saborear no espasmo do teu prazer...

Navegas em mim, para te perderes...
Eu uso um olhar brilhante que se confunde com o azul quase lilás que trago de outros lugares.

Perdes-te no meu rio, salgado e doce, saboreias o meu gemido, acaricias os meus receios, penetras a minha concha.

Vejo-te mergulhar no desejo do abismo.

Apanho-te no salto e embalo as tuas incertezas suaves e transformo-as em ternuras dos gritos dos golfinhos.

Já não há margens. As cidades desapareceram. Fica-nos o mar. Fica-nos o dia de sol que partilhámos tão longe e tão perto.

fantasia revisitada em mulheres em chamas


quarta-feira, setembro 08, 2004



Fragmentos…


…de uma estória. Pode ser o início ou pode ser o fim…será obrigatoriamente escrita na areia molhada.

Trazia ainda nos bolsos do casaco a frase dele quando a vira sair da casa de banho, envolta numa toalha branca. (Depois da água, depois do sabonete, depois dos corpos, depois da espuma, depois do amor).

-“ És tão bonita…”

Meteu as mãos nos bolsos e sentiu os grãos de areia que ainda guardava. Sacudiu os bolsos. A frase, tal como a areia, escorregaram-lhe suavemente por entre os dedos. Deixou-as na praia. Seriam lavadas pela maré-cheia.


terça-feira, setembro 07, 2004



Paisagem Inquietante



Havia uma Paisagem Inquietante dentro de um conto que eu queria um dia contar. Nem era um conto. Seria um quadro literário, ou seria um poema, se eu fosse Poeta.

Vejo a tua paisagem,
e faço um poema sem rima
deito fora as metáforas
parvas, inúteis, borda fora...
abro a janela.

O risco desenhado pela tua lua
insinua-se no meu soalho de madeira
dispo-me em dança nua para a lua que me seduz esta noite.

O risco traçado a prata
atravessa a minha janela
e desenho no meu corpo um pássaro em forma de árvore
tatuagem para sempre, indelével
um sonho com gritos de gaivotas ausentes
no meu ombro
gravada a preto e branco
em dor
em sorrisos
em frágeis suspiros.


sexta-feira, setembro 03, 2004



Renovação. Nada se cria. Tudo se recria


Gostava de saber ver para lá das imagens que os meus olhos vêem
Gostava de sentir a cor e a forma que as almas têm...

Gostava de ter uma janela com vista para dentro, a preto e branco com um espaço (in)finito para colorir e uma caixa de lápis Giotto novinhos em folha.

Gostava de ser leve

como sempre que o amor é feito de ilhas que se tocam indelevelmente.


texto editado em mulheres em chamas. Nada se cria. Tudo se recria. Reinventei o texto depois de ver o filme 21 Grams


Fotografia de Alberto Monteiro